Nem menino, nem menina

Quando eu era criança, aprendi na aula de biologia que podíamos ser duas coisas: macho ou fêmea, menino ou menina. Em 2015 as coisas já são um pouco diferentes, o mundo percebeu que gênero é uma coisa muito mais complexa do que anatomia. Eu posso ser homem, mulher, transgênero, gênero fluído, bigênero, agênero. É a maneira como eu me identifico, e isso nada tem a ver com órgãos sexuais.

Como sempre ocorreu na história, a indústria da moda tende a acompanhar as mudanças sociais e culturais do mundo. Nesse caso não é diferente e cada vez mais grandes marcas buscam se libertar das normas tradicionais de gênero, das roupas “de homem” e “de mulher”, para criar peças que sirvam para qualquer um.

Claro que não é de hoje que a moda feminina rouba peças do guarda-roupa masculino, mas a moda unissex, ou genderless fashion, vai além do sapato oxford com salto.

A marca italiana EDITHMARCEL é uma das representantes do grupo de moda sem gênero. Segundo os fundadores da marca, Andrea Masato e Gianluca Ferracin, fugir do feminino e masculino era a proposta desde o início. O próprio nome da label é uma referência a esse ideal, uma junção de dois nomes, Edith e Marcel.

edithmarcel

As roupas seguem um linha andrógina, com cortes estruturados e formas geométricas que não acentuam necessariamente um tipo de corpo. A coleção de primavera/verão 2016 trabalha com casacos, calças e bermudas em uma paleta de cores super vibrante. Mais do que unissex, a marca se guia pelo termo a-sex, uma ausência de gênero, ao contrário da junção de dois.

Já a francesa Solovière, especializada em sapatos, começou como uma marca masculina, mas acabou expandindo sua numeração por conta da demanda de clientes. Para a idealizadora Alexia Aubert, unissex nada mais é do que um produto tão perfeito que tanto homens, quanto mulheres o desejam.

solviere

Grandes nomes da moda já entraram na nova tendência, como Vivienne Westwood, que lançou a linha Unisex Gold Label. No desfile da coleção de outono/inverno 2015/16 as mulheres vestiam paletós oversized e um modelo homem fechou a passarela vestido de noiva.

vivienne

A coleção masculina de verão 2016 da italiana Gucci também gerou muitos comentários. O desfile trouxe peças com referências anos 70, trench coats, calças e lenços banhados em uma androgenia excêntrica e chamativa.

gucci

Acho importante observar que apesar do unissex ou do agênero estarem ditando cada vez mais o trabalho de muitos estilistas, parece que ainda é muito mais aceitável uma mulher masculina do que um homem feminino. O estilo andrógino muitas vezes cai para o lado dos casacos estruturados, da alfaiataria não tão ajustada, mas são poucos os casos de coleções com saias ou vestidos para homens. Afinal, se funciona para um lado, deve funcionar para o outro.

É claro que ainda temos muito caminho para percorrer com essa nova tendência, mas não devemos deixar de reconhecer essas mudanças. Acho que uma frase usada pela editora sênior de moda da Elle Brasil, Renata Piza, resume muito essa nova fase da moda: “Muitas vezes acusada de alienada e excludente, a moda, essa velha senhora, chegou ao século 21 pronta para tudo – e para todos”.

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6 de setembro de 2015
10 de setembro de 2015

Luísa Dal Mas

Jornalista, criativa, estressada, meio louca e apaixonada por moda e história. Tentando colocar um pouco de pó mágico nas coisas do dia a dia.

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