O que está mudando no calendário fashion e porque as pessoas estão enlouquecendo

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Desde o início do ano, no boca a boca da galera do mundo da moda, dos desfiles e das tendências, não se fala em outra coisa: a mudança no calendário fashion e nas fashion weeks do mundo todo. Então vamos falar sobre isso também.

Primeiramente, o que nós precisamos saber é que o mundo está mudando. Isso quer dizer que a indústria está mudando, a maneira como nós consumimos conteúdo e mercadoria está mudando e, consequentemente, o papel das semanas de moda está mudando.

Por acaso, o tema do meu TCC tem muito a ver com essas mudanças e com as dúvidas que vêm tirando o sono das maiores marcas do mundo. No meu trabalho, eu falei sobre como a presença das redes sociais afetou a maneira como revistas de moda apresentam as fashion weeks para seus leitores. Antes, era preciso que alguém com acesso ao mundo da moda e aos desfiles contasse para o público o que tinha surgido na passarela. Revistas como a Elle faziam coberturas extensas dos desfiles, detalhando cada tendência identificada.

Hoje, as coisas mudaram. Com o Instagram, Twitter, Snapchat, Periscope e sabe-se lá o que mais, a cobertura pode ser feita ao vivo para quem quiser ver. Não é necessário ter o ingresso, o convite da primeira fila, para saber o que a Chanel está apresentando nessa temporada. Todas as novidades estão a disposição do consumidor instantaneamente.

Pois as revistas já entenderam essa tendência e mudaram o tipo de cobertura, focando muito mais nas redes sociais. O problema é que as marcas ainda estavam trabalhando com um modelo antigo de moda. Essas coleções, que chegavam no celular do consumidor na mesma hora que a modelo botava o pé na passarela, só entravam nas lojas seis meses depois.

O calendário fashion sempre trabalhou com um adiantamento, apresentava as coleções uma temporada a frente da vida real. O verão era apresentado no inverno e as peças só chegavam às lojas na próxima estação. Isso acontecia porque, quando foram criadas, as semanas de moda tinham foco nos compradores, que tinham acesso às criações primeiro, em apresentações exclusivas, e então poderiam escolher o que levariam às lojas.

O problema, como já deu pra perceber, é que as fashion weeks vêm perdendo o fator exclusividade. Todo mundo já sabe o que as marcas têm de novo, qual a lógica em esperar meio ano para poder adquirir? Querem aqui e agora, essa é a lei maior do século XXI. Com esse esquema, só quem se beneficia são as grandes redes de fast-fashion, que já pegam as principais tendências das passarelas e jogam nas araras com preço baixo para qualquer um comprar a hora que quiser.

“Em um mundo cada vez mais imediatista, a atual forma de mostrar uma coleção para os consumidores quatro meses antes de estar disponível é uma ideia antiquada e que não poderia mais fazer sentido”, disse Tom Ford em um comunicado. “Vivemos com um calendário de moda e sistema que são de outra era.” (Fonte: Elle Brasil)

 

Grandes nomes como Burberry, Tommy Hilfiger e Tom Ford já se ligaram no novo ritmo das coisas e anunciaram mudanças nos seus calendários. Vão lançar apenas duas coleções por ano, alguns sem divisão entre inverno e verão, e já estão disponibilizando as peças nas lojas logo após os desfiles.

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Mas, enquanto uns já entraram no ritmo novo, muita gente ainda fica com um pé atrás. As semanas de moda sempre tiveram um certo glamour, a exclusividade e o desejo fazem parte da essência do mercado da moda e com essas novidades todas, a presença das redes sociais, das blogueiras, parece que todo esse romantismo se perdeu.

Recentemente, nomes importantes como Karl Lagerfeld e François Pinault, CEO do grupo Kering, opinaram contra o sistema que vai mudar a forma como o mundo vê e consome moda. Pinault já disse que nada vai mudar dentro da Gucci, dizendo que o que está sendo chamado de “veja agora, compre agora” vai contra o “sonho” que o luxo precisa para funcionar. (Fonte: FWW)

A verdade é que nós estamos bem no meio de um período de mudança, ninguém sabe bem o que está acontecendo e a única certeza é que a moda como nós conhecemos já não funciona mais.

Seja apostando no estilo genderless, fazendo só uma apresentação por ano, trocando os desfiles por transmissões ao vivo, cada marca deve tentar trabalhar com o que é mais favorável para seus clientes e seu perfil. Ainda não há uma verdade, uma definição do que funciona, e isso que é legal, estamos escrevendo história aqui. Provavelmente, a partir da próxima temporada de desfiles, mais labels apostem em formatos diferentes, então vamos ficar de olho.

Pra quem quiser ler mais sobre o assunto:

assinatura

Luísa Dal Mas

Jornalista, criativa, estressada, meio louca e apaixonada por moda e história. Tentando colocar um pouco de pó mágico nas coisas do dia a dia.

1 Comment

  1. Responder

    Lisete

    3 de março de 2016

    Muito bom, adorei o post!

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