SPFW e a crise existencial da moda

Assim como todos nós, moda está passando por um período de crise existencial forte – principalmente aqui no Brasil. O que não é algo necessariamente ruim, só quer dizer que estamos em um período de mudanças, e mudanças são (quase) sempre boas.

Acho que durante o SPFW, que rolou na última semana, ficou ainda mais evidente o conflito de discursos que vem acontecendo. No início do ano a organização do evento anunciou oficialmente que a nossa fashion week brasileira seria a primeira a aderir totalmente ao modelo see now, buy now (veja agora, compre agora).

Mas como era de se esperar, nem todas as marcas se adaptaram 100% à proposta e o resultado foi uma coisa meio louca e misturada.

De um lado temos marcas como Animale e Lilly Sarti, que já colocaram todas as peças a venda logo após os desfiles, se jogando de cabeça nessa nova fase de consumo imediato da moda, como já rola lá fora com a Burberry.

lilly-sarti

De outro, temos designers que andam totalmente contra a corrente, como Ronaldo Fraga, que apresentou um dos desfiles mais impactantes da edição – e talvez de todas as edições do SPFW. Mais do que fazer moda, Ronaldo sempre fez política (que na verdade, quem disse que são coisas separadas?).

Nessa edição não foi diferente. Em um momento da indústria onde vender parece ser o foco principal, Ronaldo deixou as roupas em segundo plano e colocou os holofotes no conceito, na causa. Ele falou de luta, de mulheres trans, de preconceito, de violência. Ele fez o povo chorar na plateia, não com roupas, mas com diálogo.

ronaldo fraga spfw

Então fica essa dúvida pra mim e talvez pra muita gente: o que é o certo? É ser rápido, inovador, dinâmico? Ou é pensar a moda como manifesto, como arte, apostar em conceitos que não são limitados pelo comércio. É difícil apontar o dedo e definir o que vai dar certo e o que vai sumir daqui uns meses. Todo mundo está indo no famoso feeling, testando coisas novas, vendo o que funciona, torcendo pra dar certo.

A novata Just Kids, de Juliana Jabour e Karen Fuke, trouxe nas peças uma provocação: moletons com as frases “We are not here to sell clothes” (não estamos aqui para vender roupas) e “Fashion kills” (moda mata). Mas na semana seguinte já colocaram as peças a venda. E aí?

Que bela crise de identidade estamos vivendo.

just kids spfw

assinatura

6 de novembro de 2016

Luísa Dal Mas

Jornalista, criativa, estressada, meio louca e apaixonada por moda e história. Tentando colocar um pouco de pó mágico nas coisas do dia a dia.

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